terça-feira, 2 de setembro de 2008

Material Humano

texto especialmente escrito para

http://www.sociedadekinkysade.com/

01/09/2008

Material Humano

Entendo que quem ingressa neste site já tenha ao menos uma base do conhecimento sobre BDSM, o mínimo que seja, assim, o que é o BDSM, suas subdivisões, seus modos e tudo mais, serão focados em tópicos próprios e não nesta exordial. Parece um longo texto, mas vai ver que ele é muito mais curto do que merecia ser.

Tentaremos focar exatamente no DOM, ou melhor, a pessoa DOMINANTE em um relacionamento, indiferente a qualquer forma praticada por esta. Longe de Mim a ambição de encerrar o assunto. Ainda mais propriamente em relacionamentos D/s, que talvez seja onde possa doar uma singela contribuição.

Tratei de encabeçar este texto com o título de Material Humano, por isso ser à base de tudo, a pessoa, o ser humano.

Há no mundo animal também a presença do Ser Dominante, de uma matilha de lobos, entre os leões e em muitas outras oportunidades podemos ver esta mesma ocorrência na natureza.

Este acontecimento dá-se geralmente por antiguidade, pela posição social ou ainda pela força, sendo esta última mais comum.

Já para nós Humanos, seres racionais – ou às vezes nem tanto – não há muita diferença. Temos a aspiração intrínseca de dominar, faz parte da natureza de uma grande maioria este desejo inerente ao ser. Tudo isso é demonstrado claramente na história do mundo, de uma forma ou de outra e pelos mais diversos motivos.

Assim, definido estes princípios, vemos desde os primórdios os exemplos de Átila, de Césares em Roma, de Napoleão e tantos outros que formaram nossa história, mas estamos falando de BDSM, de D/s.

Anteriormente havia uma declarada sociedade machista, onde o homem era o líder nato para qualquer relacionamento, não importando se eram negócios, governo ou um relacionamento interpessoal. Mais evidente isto em países do oriente, que ainda hoje mantêm em sua cultura estes traços.

Para seguir mais adiante, um pequeno conceito histórico, que entendo ser o divisor de águas para o atualmente chamado de BDSM Moderno. (Nota: não estamos falando de machismo ou feminismo exacerbado).

Um dos escritores mais conhecidos pelo meio é certamente Sade e muito bem escrito por Diz[1] em seu blog, aproveito para aqui trazer um material relevante, importando seus dizeres, mas temos outros pensadores também que retratam muito bem este momento.

Dependendo do leitor, os escritos de Sade podem parecer indigestos ou estimular fantasias sexuais, mas, de qualquer forma, eles constituem uma peça chave do quebra-cabeça moderno. Usando uma expressão famosa de Georg Lukacs, Sade é talvez a "máxima consciência possível" da modernidade incipiente.


Quando o mundo começa a sonhar com uma sociedade de iguais e a querer realizá-la, Sade produz uma obra monumental, em que revela que a vontade e o exercício do poder são ou se tornaram escabrosamente eróticos. Como ele mesmo disse, não basta sacudir os alicerces do antigo regime: para sermos revolucionários, vamos precisar de mais um esforço.


O poder parou de ser o atributo exclusivo de algumas castas, mas ainda não é a hora de festejar a invenção da liberdade: a paixão de dominar se alastra por nossa vida de duas maneiras.


A primeira foi o objeto da reflexão de Michel Foucault: na modernidade, as expressões clássicas do poder, autoritárias e diretas, são substituídas por formas capilares de controle. Por exemplo, ao longo do século XIX, a medicina se encarregou de regulamentar e reprimir práticas sexuais que a lei não proibia mais.


A segunda é a descoberta de Sade: o poder assombra a fantasia erótica moderna. Eis como a coisa funciona, esquematicamente. Um sujeito se define pela rede de relações que lhe atribui um lugar no mundo. Na modernidade, as relações que mais importam não são as hierarquias sociais estabelecidas: o sujeito se relaciona, antes de mais nada, por amor e por paixão, ou seja, por livre escolha. A conseqüência disso não é um mundo em que o amor e a paixão substituiriam a vontade de dominar. Ao contrário: o amor se torna um teatro do poder e a paixão encontra no domínio ou na submissão um extraordinário recurso para a excitação sexual. Reciprocamente, o exercício do poder é contaminado por modalidades de prazer e de gozo aprendidas na cama, ou seja, por um erotismo violento, sombrio e, em geral, envergonhado.

Vou mais além. Sade é apenas um lado do prisma pelo qual observamos hoje o que se tornou o moderno BDSM. Existem muitas outras formas de relacionamento Dominante/submisso.

Assim nasce um Dominador. E assim, como na natureza ou na vida de cada um, este posto tem seus prazeres, e são muitos, mas também vem encargos e responsabilidades, das quais explanaremos mais adiante.

Acredito sim, haver uma troca de aprendizado e experiências em uma relação D/s, de parte a parte, cada qual, em seu pólo aprendendo e ensinando, crescendo e evoluindo, e este é o grande motor para tudo isso funcionar, a isso costumo dar o nome de CUMPLICIDADE.

E Cumplicidade é uma sintonia, uma química entre as pessoas, são ações compartilhadas pelas partes e que ficam só entre elas. Um apoio de um ao outro em todos os sentidos.

Somos muitos, milhares, quem sabe milhões e cada qual na sua forma, do seu jeito, mas nota-se uma realidade de uma consciência coletiva como afirmava Jung. Alguns despertos e outros que ainda não decifraram este magnífico sentimento, mas juntos, caminhando para um mesmo ponto.

Contudo, falávamos de responsabilidades, sim responsabilidades, assim, como àqueles que detêm o poder de governar – e realmente isso faz parte do dominar - como os que possuem um artefato nuclear, guardada as devidas proporções. Poder e responsabilidade caminham lado a lado.

Dentre estes, poderia citar os mais comuns. Muito bem descritas por Polly Peachum e traduzidas por Dragomir Boutli.

AUTO CONTROLE

Se você não pode se controlar - seus vícios, suas emoções, sua tendência a explodir - você não pode ter uma pessoa dirigidas por você. Elas são antes, disso derivadas dos problemas dela com a submissão. Aprender a não responder narcisisticamente - ou seja, com raiva, com afronta pessoal, ferido ou na defensiva - quando ela se comporta de maneira resistente ou manipulativa, é parte do autocontrole. Ao invés de hiper reagir, um Dominador auto controlado vai racionalmente e com o tempo encontrar as estratégias que vão funcionar baseados no seu conhecimento íntimo sobre a sua submissa que virão a desencorajar o comportamento e as atitudes que ele desgosta. .... Conforme mencionado acima, todas as submissas, mesmo as melhores, resistem ao controle por vezes. Lidar com essa resistência de maneira que encoraje o bom comportamento na submissa e ajude a treiná-la a ser uma melhor submissa e uma pessoa mais feliz, significa entender desde o início que as ações de sua submissa, ainda que você possa desgostar delas,

PERSISTÊNCIA E CAPACIDADE DE RECUPERAÇÃO EMOCIONAL

Pessoas que apenas imaginam que são Dominadoras e que subitamente se vêem na posição de ter de controlar um ser humano real face a face, frequentemente fazem uma pergunta muito reveladora: Ao ter de encarar as dificuldades iniciais de treinamento de uma submissa e superar a violência de sua confusão ou resistência, uma situação que requer tanto autocontrole e maturidade de sua parte, eles frequentemente ficam se perguntando o que o Dominador afinal vai levar desse relacionamento além de trabalho duro e desgosto. Um Dominador verdadeiro nunca fica se perguntando isso seriamente. Ele sabe o que quer levar num relacionamento de intercâmbio de poder, e ele cria as condições apesar das dificuldades para que ele o obtenha. Um Dominador precisa realmente ser Dominador, precisa realmente ter uma vontade suficientemente forte de ter suas necessidades satisfeitas, de insistir que ele vai obter o que quiser do relacionamento. Ao lado disso, para alguém que é genuinamente Dominador, superar a resistência da submissa de maneira que venha a melhorar o relacionamento para ambos, é algo que, apesar do desgosto que ele tem pela verdadeira resistência, ele saboreia, já que a longo prazo isso vai aumentar o seu controle.

RESPONSABILIDADE

Possuir alguém por toda a vida é um esforço muito sério. Quando você controla outra pessoa e pode fazer com ela qualquer coisa que você queira, você tem uma grande responsabilidade em relação a ela. Algumas pessoas frivolamente igualam a responsabilidade do Dominador àquela de possuir um animal de estimação, mas na realidade a tarefa é muito maior do que essa. Em termos de seriedade com a qual o Dominador precisa assumir sua responsabilidade, é mais sério inclusive do que ter um filho. Você controla essa pessoa absolutamente e assumindo que você ama a sua escreva você tem que se certificar de que as coisas que você faz - ou não faz - não são na realidade perigosas nem danosas por sua responsabilidade. Você tem que pensar primeiro, e muito cuidadosamente, antes de falar quando estiver com raiva. Você tem de considerar como cada ação que você empreende ou cada decisão que você toma afeta sua submissa assim como à você mesmo. Você tem que prever como a sua submissa vai reagir a certas coisas antes que você se comprometa com elas. Você esta dirigindo o navio. Você é o único responsável. Se você realmente entende isso, você também sabe que quando as coisas dão erradas ou não funcionam, não é erro da pessoa que esta indefesa diante de você e que tem que seguir suas ordens. É sua responsabilidade e somente sua.

MATURIDADE

Um Dominador tem que ser crescido, suficientemente crescido pra assumir a responsabilidade quando as coisas dão errado. Uma criança no corpo de um adulto, por outro lado, põe a culpa sobre cada coisa ruim ou cada contratempo que lhe acontece nos outros. Nada jamais é de sua responsabilidade. Sempre é a outra pessoa que estragou tudo. Uma pessoa madura também tem a paciência e disposição de esperar um longo tempo, se necessário, para que as coisas dêem certo. Certas coisas, em um intercâmbio de poder, requerem um longo tempo para serem alcançadas e um Dominador especialmente tem de ter a determinação e a força para esperar por essas coisas sem desistir ou desanimar. Uma pessoa madura esta apta a manter-se centrada. Ele não vê cada pequeno ataque ou dificuldade emocional de sua submissa como sinal de que o relacionamento não esta dando certo ou como algum sintoma do fato de que sua submissa não o ama. Um Dominador maduro também sabe como andar por sob a linha tênue entre não deixar as dificuldades emocionais da parceira submissa dominá-lo por um lado, e por outro lado, não se tornar emocionalmente distante da submissa. Uma pessoa madura tende a ter uma personalidade calma e plácida e que não se torna instável por força de cada pequeno incidente que a vida joga sobre ela. Um Dominador maduro é alguém cuja submissa pode ver como admirável, em quem ela pode se recostar, é alguém que pode ser visto como pilar de força e suporte, toda hora, não somente quando ele acha prazeroso ou fácil desempenhar esse papel. Um Dominador maduro tem um bom conhecimento da natureza humana por ter encontrado suas várias formas e sabe em geral o que dá certo e o que não dá quando se lida com uma submissa. Ele não tem que aprender tudo isso experimentando em você.

CONFIABILIDADE

Essa talvez seja a qualidade mais importante que um Dominador tem que ter. Uma pessoa que é totalmente dependente de outra e que existe tão somente para agradar essa pessoa, tem que saber que seu Dominador é confiável e coerente - e especialmente que ele é capaz de manter sua palavra. Um Dominador não é confiável só porque ele diz que é, ele é confiável quando ele prova pra você com ações consistentes por um longo período de tempo que ele faz o que ele diz que vai fazer. E quando ele diz, ele faz. E que ele te conta a verdade e não te engana. Que você pode ir até ele com seus problemas, sejam esses problemas quais forem e contar, que você vai encontrar nele compaixão e amor e que ele não vai te rejeitar justamente porque esses problemas fazem-no se sentir inseguro, confuso ou perturbado.

EXPERIÊNCIA E CONHECIMENTO

Ajuda imensamente se um Dominador sabe o que esta fazendo. Sabe quais as atividades são seguras e quais colocam a submissa em perigo física ou psicologicamente. Entende como conhecer sua submissa - mergulha profundamente em sua personalidade de tal forma que ele possa melhor controlá-la, sabe como mantê-la servindo à ele feliz e entusiasticamente e sabe realmente como controlar alguém. A maior parte das pessoas que querem ser Dominadores não tem a menor idéia de como fazer nada disso. Eles podem ter um pouco de sucesso ao fazer cenas fantasiosas no computador, e pensam que essa brincadeira infantilóide que qualquer um - mesmo uma submissa como eu - poderia aprender a fazer convincentemente com a prática de um par de dias, os faz experientes e universalmente dominantes. Ou eles podem aprender dos terríveis livros de aconselhamentos de etiqueta sadomasoquista no mercado que existem “métodos de treinamento” ou fórmulas que dão certo com todas as submissas. (Nada está mais distante da verdade). Ou eles podem ter ido a um par de play parties, visto as performances, levadas a cabo por indivíduos que são somente apenas um pouquinho menos ignorantes que eles mesmos (ainda que essas pessoas geralmente vão fazer de tudo ao seu alcance para convencer você de que eles são experts em sadomasoquismo) e concluíram que realmente controlar alguém está intimamente ligado a essas cenas artificiais e encenadas feitas em grande parte para impressionar o público sobre o quão competentes ou inteligentes eles são. Aprender a controlar alguém, como superar suas resistências (toda submissa que experimenta dominação real e permanente, resiste) como lidar com cada nova situação que aparece exige uma grande dose de conhecimento e experiência e constitui-se em uma arte também. É algo complexo já que cada situação individual requer uma resposta diferente, não pré-pronta ou estereotipada. A maior parte das pessoas na cena, a maior parte daqueles que se auto intitulam dominadores e que se promovem como sábios gurus sadomasoquistas, não sabem nada sobre nada disso. Eles estão se atrapalhando no escuro. Um Dominador ou aprende esse tipo de coisa através de muitos, muitos anos na escola da dureza, ou porque aprendeu de um outro Dominador que já possui esse conhecimento.

DESEJO

É uma tristeza que muitas pessoas que se auto intitulam Dominadores hoje em dia não tem absolutamente a mínima idéia do que fazer com uma submissa uma vez que eles estejam sozinhos com ela no mesmo cômodo. Enquanto eles puderem bravatear e se jactar e fingir virtualmente ou à distância, ou por um curto período de tempo, eles vão bem. Mas uma vez que eles realmente passam a ter uma pessoa real com a qual lidar 24 horas do dia, rapidamente eles perdem todas as idéias. A maior parte dessas pessoas não tem nenhuma das qualidades essenciais descritas acima, e elas realmente não querem nenhuma das dificuldades ou das pressões que controlar alguém sempre envolve. Eles querem ser Dominadores inteiramente para inflar seus egos ou porque eles acreditam que é uma maneira fácil de conseguir com que garotas façam o que eles querem, ou porque soa muito mais prazeroso e fácil do que um relacionamento convencional. Eles não são loucos por controle. Eles não são verdadeiramente Dominadores. Se eles fossem eles iriam aceitar as pressões e dificuldades envolvidas com o controle, já que eles iriam saborear esse controle tanto que estariam dispostos a lidar com quaisquer problemas que ele venha a trazer. Alguns auto proclamados Dominadores contudo não querem na realidade controlar a vida de outro. Eles não querem possuir uma escrava (ainda que eles frequentemente acreditem que eles querem uma, até que eles a encontram) e quando confrontados com a realidade da posse, eles fogem, abandonando suas responsabilidades. A forma mais comum de fugir ou de abdicar da responsabilidade do Dominador é culpar a submissa por todos os problemas do relacionamento, fingindo que ela é totalmente responsável. Essa é a situação mais comum que eu e John ouvimos de muitas submissas que nos escrevem pra pedir conselhos.

Por tudo isso, vê-se que não é uma forma teatral, não é uma encenação, é realidade para muitas pessoas. E para participar, deve estar consciente de que deseja.

Aprenda, pesquise, converse, discuta, pois tudo isso faz crescer e entender cada dia mais o que é ser Dom.

Atentamente.

♠ Lestat D´Ladonia



[1] Diz Notas de uma autora em seu blog CAMINHAR - http://lauravive.blogspot.com/

2 comentários:

banksy

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