como descobrimos e exploramos nossos desejos…
Este documento tenta descrever os diferentes estágios que uma pessoa, de um modo geral, atravessa quando desenvolve sentimentos e emoções relacionados à troca de poder erótica (normalmente chamada de BDSM ou SM). Esta teoria de estágios é baseada em algumas pesquisas científicas feitas a respeito de BDSM e/ou sadomasoquismo, entrevistas com BDSMistas e discussões entre membros do grupo de discussão Maledom (Internet).
Estágio 1: O estágio inicial (descoberta) onde são percebidos os próprios sentimentos
Sentimentos e emoções referentes ao BDSM são frequentemente descobertos bastante cedo (às vezes na pré-adolescência), apesar dos mesmos poderem emergir ou se desenvolver mais tarde também. Com muita frequência as pessoas descobrem estes sentimentos depois de passarem por um período difícil em suas vidas, como um divórcio. Isto porque provavelmente tais eventos fazem com que as pessoas se auto-avaliem e avaliem o ambiente à sua volta. Uma vez que o contexto é o BDSM, estes sentimentos sempre têm conotações sexuais e podem coincidir com o desenvolvimento geral da sexualidade do indivíduo.
É essencial neste estágio que estes sentimentos não sejam nem explicitamente dominadores ou submissos, mas relacionados à troca de poder. Sentimentos dominadores e submissos podem – e provavelmente vão – existir próximos uns dos outros na mesma pessoa e vão certamente – exceto para aqueles que nutrirão gosto por ambos os aspectos (switchers) – encontrar sua direção.
Ninguém é 100% dominador ou 100% submisso. O que evolui é uma tendência a crescer em direção a uma das pontas da escala, seja ela dominadora ou submissa. O tamanho destes sentimentos dominadores ou submissos podem eventualmente diferir de pessoa para pessoa. Não está claro o que causa exatamente a diferença no desenvolvimento, apesar de aspectos como educação, liberdade de pensamento, criatividade, background familiar e religião serem influentes. Infelizmente, às vezes, histórico de abuso também é um fator. O primeiro estágio é muito frequentemente marcado pela incerteza.
Estágio 2: O estágio do medo
A incerteza adicionada a fatores sociais normalmente levam ao medo de alguns sentimentos e emoções e podem acarretar a períodos mais curtos ou longos de reclusão. Mais uma vez, a criação, religião e educação são os fatores influentes aqui, combinados com o tabu social, a falta de informação sobre o assunto, legislação desnecessariamente limitativa, preconceito social, estereotipagem e um enorme vazio na educação sexual geral.
Tanto Dominadores quanto submissas neste estágio têm a idéia de que são os únicos que possuem estes sentimentos e em quase todos os casos não falam (ainda) sobre eles. Alguns buscam ativamente informação, outros, apenas escondem, e ao mesmo tempo, secretamente nutrem seus sentimentos. Para a pessoa envolvida, os sentimentos não são identificados como “errados”, e sim como positivos e especiais e principalmente “muito próprios dela”. No entanto, há um conflito direto com os aspectos gerais sociais e legais e o comportamento politicamente correto.
Não é esperado que uma mulher, na sociedade moderna, seja submissa ou fraca e estas que nutrem fantasias de estupro, sequestro, etc serão vistas com frequência por outras mulheres como um perigo para o gênero. Na verdade, é questionável se as pessoas as veriam desta maneira, mas a própria pessoa pensa que é vista deste modo – na maioria dos casos. O homem, por outro lado, que não deve bater em sua esposa ou namorada, frequentemente terá medo de ser marcado como um monstro ou um sádico.
Estágio 3: O estágio dos “primeiros passos” onde se começa a experimentar (consigo mesmo), ler e buscar informação
Mesmo quando mantém suas fantasias para si próprias, as pessoas começam a experimentar, em muitos casos com elas próprias, ativamente incorporando tanto o papel dominador quanto o submisso. Começam a procurar mais informação. Na maioria das vezes, estas “informações” são fortemente relacionadas às suas fantasias (por ex. procurando por livros e histórias sobre elas, como também imagens).
Este é normalmente o estágio onde a pessoa descobre que existem outros semelhantes a ela. Se não é possível contatá-los diretamente, a linha geral de pensamento é “deve haver mais, de outro modo, não escreveriam estes livros, revistas, histórias e não fariam estes desenhos, fotos e vídeos”. Descobrir que outros têm os mesmos sentimentos é um alívio para a maioria das pessoas neste estágio, mas às vezes também é, ao mesmo tempo, assustador. Por esta razão leva-se um tempo antes que se procure por outros para conversar ou por um parceiro.
Estágio 4: Onde se tenta encontrar outros
Na verdade, o Estágio 3 normalmente dispara o Estágio 4, onde se inicia uma busca ativa por outros que compartilhem os mesmos sentimentos, ou tenham esta intenção. Se isto acontece em uma relação já existente, o maior problema para a pessoa envolvida é o risco que se corre, uma vez que é possível (e muitas vezes acontece), da relação se acabar. É tido como fato que por causa dos riscos envolvidos algumas pessoas tendem a parar seu desenvolvimento aqui e voltam a nutrir seus sentimentos
A pessoa envolvida prioriza em excesso estes sentimentos, colocando-os acima de todos os outros aspectos de uma relação e os super-idealiza ao mesmo tempo;
As pessoas têm problemas por um longo período com o equilíbrio na vida cotidiana, tentando ser uma pessoa uma hora e outra pessoa em outra hora. É sabido que especialmente as submissas têm problemas com seus diferentes papéis como mães, profissionais e submissas;
Outro problema, especificamente para as submissas, é priorizar ideais. Por um lado querem ter auto-confiança e ser fortes. Por outro, existem emoções submissas, que parecem estar em conflito direto com isso.
Estes problemas de prioridade, especialmente o "priorizar em excesso", levam às vezes ao desaponto e à desilusão, como por exemplo não encontrar um parceiro ou forçar esta prioridade ao parceiro existente ou cônjuge. Submissas neste estágio às vezes são muito vulneráveis a uma relação abusiva, devido à ênfase exagerada de suas tendências BDSMistas.
Estágio 5: O estágio da reconciliação, onde se agarra às fantasias e se começa a compreendê-las
Neste estágio muita informação foi coletada, coisas foram experimentadas e de alguma maneira um parceiro, ou outros para compartilhar, foram encontrados. A pessoa envolvida começa agora a compreender o que está acontecendo em sua mente.
Um fator de grande importância aqui é que somente agora (e o processo descrito nos diferentes estágios até agora podem levar anos) a pessoa será reconhecida pela comunidade BDSM, caso ela decida entrar nesta comunidade. Será imediatamente identificada como “novata”, quando, na verdade, já é bastante experiente com emoções de troca de poder e lhe falta apenas experiência “pública”.
As desilusões do Estágio 4 são agora uma parte da curva de aprendizagem. Usamos o plural aqui, porque a maioria dos BDSMistas passam por mais de um relacionamento (às vezes alguns bem curtos em duração) e outras experiências BDSM antes de encontrar o parceiro e o ambiente certos.
Estágio 6: O estágio da busca pelo parceiro (dentro de uma relação já existente ou encontrando uma nova relação – a maioria das pessoas tende a misturar este estágio com o terceiro)
Pode haver um parceiro disponível neste momento, porém, é hora dos parceiros alcançarem o mesmo nível de informação e compreensão e ambos agora têm de identificar seu “lugar comum”. Para os que estão sem parceiros é o momento de lamber suas feridas dos estágios anteriores e recomeçar a busca por um parceiro, desta vez, melhor equipado.
Estágio 7: O estágio de revolver, onde se cresce, aprende, experimenta, cresce de novo, etc.
Este é o infindável estágio onde a relação realmente vai florescer através da experimentação e aprendizagem
Algumas notas gerais
Tanto Dominadores quanto submissas passam por estes estágios, apesar de que as experiências individuais podem ser diferentes da figura geral, descrita aqui. As pessoas podem pular estágios, e estes também podem ser combinados ou misturados.
Os estágios normalmente não têm início ou fim definidos. Em geral, flui-se de um estágio para o outro. Também não há idade específica, onde as pessoas desenvolvem os sentimentos BDSM. Isto tanto pode começar cedo, aos 5 anos de idade, como aos 55 ou 60. Adolescentes normalmente passam por um período de experimentação sexual. BDSM pode fazer parte disso, mas esta não é, de maneira alguma, uma indicação de que a pessoa envolvida desenvolva sentimentos BDSM no curso de sua vida.
Não há uma duração específica para os estágios. O processo todo pode durar anos e algumas pessoas – devido a circunstâncias e habilidades pessoais – atravessam certos estágios mais rapidamente que outras. A quantidade de acesso à informação e a habilidade que se tem de encontrar tal informação é vital à velocidade do desenvolvimento. Desilusões prematuras e abuso podem trazer conflitos extras e demandam mais tempo em certos estágios.
Nem todas as pessoas passam por todos os estágios. Algumas param de seguir seus sentimentos/interesses BDSM e não dão continuidade a esse desenvolvimento. Às vezes, este é o fim do BDSM para elas, e às vezes isto pode marcar apenas uma interrupção, com a continuidade meses, anos ou décadas mais tarde. Medo ou (temporariamente) não ser capaz de superar o tabu social e problemas gerais relacionados são frequentemente razões para isso.
{rianah}_Lestat, saudações à vc e ao seu Senhor.
ResponderExcluirGostei muito, mas muito mesmo desse seu texto. Claro, límpido, perfeito. Descreve com exatidão o que se passa dentro de cada uma de nós no momento em que nos deparamos com esse mundo novo - da estranheza ao enfrentamento e aceitação.
Obrigada por tê-lo escrito.
Permita-me adicionar seu blog à lista de blogs favoritos de meu blog www.pensamentosubmisso.wordpress.com
Obrigada :))